03/06/2009

Frio

Acordou como se não tivesse acordado. Ficava nesse estado de zumbi todos os dias pela manhã. Sempre tropeçava no tapete, sempre batia o pé na ponta da cama, sempre abria a janela. Sempre mantinha essa rotina, querendo ou não.
Mas hoje o ar estava diferente. As pernas estavam endurecidas, e o tropeção no tapete o levou ao chão, e sentiu como se estivesse caído de cima de um toro bravo. Sentiu o gosto da sujeira e o cheiro do tapete sujo. Tentou se levantar, mas os braços finos e maltratados pela velhice precoce (uma velhice psicológica que o afetava diretamente no físico) bambearam, tremeram, e curvaram-se. Gritou de dor, de uma dor salientada pelo frio, pelo ar gelado.
Apoiou-se na cama e finalmente se levantou. Caminhou até a janela. Ainda tonto pela queda, não tinha despertado para a nova manhã. Não compreendia o frio, não entendia os arrepios, não aceitava ser derrotador por uma força invisível. Ele só queria abrir a janela e ver o laranja da manhã, o vermelho do amanhecer, e ouvir o barulho de vento nas árvores.
Aproximou-se da janela. Estendeu seus braços finos, e empurrou a janela de uma vez. Abriu. Viu. Não sorriu.
Tudo estava azul, tudo estava cinza, tudo estava quieto.
Sentiu aquele ar queimando sua pele, enrijecendo seus músculos, travando sua mandíbula. Foi então que deixou de sentir.
Imóvel, em frente a janela, sem saber nem porquê, entregou-se ao inverno, ao frio sem compaixão, e mergulhou na imensidão azul e cinza.

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