28/12/2024

Armadilha

 Como brilham os sorrisos, as mentes, os olhares e a alegria. Nada disso é real ou faz sentido. 

Me vi ali: rodeado pela lantejoula, pela purpurina e pelo glitter. Antes fosse o carnaval pra eu esquecer que a vida é o que é. São tantos brilhos e nenhum deles é real. 

Nada é real ou faz o menor sentido. O que é vida, afinal, se tudo o que conhecemos é infinitamente inferior ao que não conhecemos. 

Por que queremos conhecer? Por que queremos esquecer? Por que lembramos e esquecemos?

Vivendo numa gigantesca armadilha 


27/12/2024

Bêbado-santo


Encheu o copo, esvaziou a garrafa. Descolou-se da realidade para maldize-la: finalmente estava livre 

O caminho é a inconsciência desnuda: a verdade está dentro de si. A cirurgia que não tem nome, que recorta as camadas da pele do espírito, tão impossível quanto a possibilidade de nada disso ser real. 

Nada disso é real. Seres com cabelos no topo da cabeça, aprisionados às próprias invenções. Uma tendência ao sofrimento pelo medo inconsciente e constante de perder a importância. De perder. De perder o desejo, seja recusando realizá-lo (ah, uma renúncia!), seja evitando reconhecê-lo. 

O ser humano torna-se seu algoz, porque o sofrimento é inevitável. Ser ser humano, é ser insatisfeito. 

Insatisfeito, eternamente insatisfeito 

26/12/2024

Cascas


Uma grande casca. E não adianta procurar porque é só isso mesmo. Desista de esperar por mais, porque é só casca o que restou. 

Dá umas batidinhas aqui na superfície. Ouviu? É o eco. Está tudo oco. Uma casca fazendo o seu melhor da pior forma: protegendo seu conteúdo inútil. É só casca preenchida pelo nada. 

Ontem eu pensei igual a você, mas não sou tão persistente ou esperançoso. É casca, e não broto. É só casca seca, velha, frágil e inútil. 

Quando a vida é só casca, não tem chuva ou lágrima que faça florescer. 

15/12/2024

Indiferente indiferença

 


Indiferente indiferença. Sabe quando somos literalmente vencidos pelo cansaço? Fui vencido. Sinto que já foi o tempo. Já foi a época. Hoje é só sublimação. 

Me tornei um matemático por obrigação. Um matemático da indiferença. Mais um dia, menos um dia, que diferença faz? Quando se está morto em vida - que é muito mais certo do que vivo em morte - um dia a mais ou a menos tanto faz  

Meu maior medo sempre foi ser indiferente com a minha existência  e não é que foi exatamente isso que aconteceu? Indiferente! 

Minha sina é não importar para quem eu queria importar. Meu erro deve ser esse: querer importar para quem não se importa.

E quando só resta o cansaço: amarro meu cavalo na baia da indiferença e vivo da sublimação. 

12/12/2024

F.I.M.

 O alento vem lento no vento

É seco, é oco, é frio, é pouco

Não tem saída, nem medida na despedida 

Sujo, imundo, impuro, escuro 

Sou abjeto, sou a desgraça 

Não tem jeito, nem quem faça 

A lâmina vem lânguida na garganta 

No pulso, corte profundo, fraco punho


Quando a dor é na alma, a rima cessa 

E a felicidade desejada não vai dar o que se espera 

Nem da vida 

Nem da rima 

Nem de mim

Fim  

11/12/2024

Des-esxistência


 Sempre ocupei o não lugar, o espaço reservado ao sem direito, a morada hipotética do corpo, a abstração da realidade imaginada. Sempre um não lugar. 

10/12/2024

EgocêntricusSapiens

Eu sou literalmente herdeiro da escória, da depravação e da imundície. Considere a beleza da sua vida como o pior de mim. Meu melhor não passa de um naco de rancor, humor e desejo.

No seu sopro de vida eu sou a muralha inviolável, o obstáculo que nenhum sopro é capaz de evitar. Sou o derradeiro fim da luz, o convite para a dor, a penitência e a culpa cristã. 

O caminho de pregos tetânicos denunciados pelo ferrugem que encontra abrigo nos rasgos da sola do seu pé enamoram-se dos cacos afiados da minha alma despedaçada, do sangue pobre e fétido da minha carne viva. 

E aqui estamos, saboreando a acidez de se estar vivo num mundo com humanos. Por que me sinto tão diferente e isolado? O que estou fazendo aqui ocupando o tempo de existir para então desexistir?

Que os vermes rastejantes sob nossa pele infestem nosso desejo de conhecer tudo, até a morte. EgoncentricusSapiens 

30/09/2024

Retorno de Saturno

 


Se eu pudesse voltar no tempo, eu voltaria para me salvar dos absurdos que vivi. 

Eu voltaria para me poupar dos diversos tipos de violência cometidas contra mim por mim mesmo, pelos outros, pelos grandes outros. Estes grandes outros que tentaram me apequenar ainda mais. 

Se eu pudesse voltar no tempo, eu me raptaria para bem longe, para bem longe de mim mesmo, numa cisão histérica de precisão cirúrgica que jamais seria contestada. 

Se eu pudesse voltar no tempo, eu iria além: impediria meu nascimento e me pouparia das angústias de estar vivo para morrer. 

29/09/2024

Medo



 Acredito que nunca assumo que meu medo existe. Como se um certo medo de assumir que se tem medo fosse ser o disparador do medo. A aposta em rejeitar da consciência a existência do medo não o elimina, mas o alimenta. 

O medo encontra-se aqui, no canto escuro da minha mente, cumprindo seu papel de me fazer sentir o medo sem saber que estou sentindo. E mesmo que o sinta, ele se transmuta: é um mestre na arte do disfarce. 

Não é ansiedade. Não é tristeza. É medo. 

27/09/2024

Velho



Entre a denúncia do espelho e a renúncia da vida, reside o desejo e o medo do fim. 

Ao mesmo tempo, existe esse desejo de nunca terminar potencializado pelo medo de que nunca termine: que sempre acentue-se a marca na pele, a beleza do opaco, a acidez de respirar e o desespero tenebroso de existir. 

Nunca me reconheci em mim, sempre me busquei no outro. Onde estava eu, senão em mim mesmo, senão no outro, senão em todo e nenhum lugar ao mesmo tempo?

Sou uma antítese por natureza, sou polos que se anulam, sou extremos enfraquecidos, sou o antônimo do oposto, sou uma luz onde se é claro, sou o silêncio do cemitério, sou o verme de um cadáver qualquer. 

Me condeno pelas memórias, me orgulho das vitórias que não existiram, me arrependo de não ter sido, visto, ido, feito, sabido, falado, agido, matado, morrido. 

Quantas vezes morri para conseguir viver? Morri em mim tantas vezes que não sei se sou o que restou, ou se sou algo outro… algo outro… outro algo que nunca saberá se é, ou se precisou ser. 

Se o caos é minha mente, se a dor é pulsante, sou o inexistente. 

Não existo em mim, nunca existi. 

Mas essas rugas, essa pele que escorre feito choro de vela, deforma o que vejo, mas reforma o que sinto. 

A grande dádiva é o grande castigo. E o castigo passa a ser bem vindo quando se percebe que o tempo passou, e as areais do tempo já estão quase que preenchendo por completo a parte inferior desta ampulheta. 

O que resta? 

Je suis la tristesse parce que j’adore mes souffrances

  20 álbuns de músicas tristes. A playlist de uma vida como a minha. Miserável, desejosamente miserável. Prazerosamente miserável.  Cada not...