Saiu do trabalho as 5:00 da tarde. Esgotado de tanto resolver pepinos, quebrar galhos, descascar abacaxis, e dar um jeitinho bem brasileiro aqui e alí, dizia para si mesmo que estava no emprego certo. Seu único problema era voltar prá casa.
Entrou na Potranca, nome do seu carro ano 92. Apesar do ferrugem aqui, do ferrugem alí, a Potranca andava, balançava, mas andava. Sai do estacionamento, deu boa tarde para o menino que anota as placas dos carros que entram e que saem. O rapaz estava sempre com a bíblia embaixo do braço, mas nunca foi visto lendo nada.
Quando dobrava a esquina da rua da sua casa, sentia um calor começando a subir pelas suas pernas. Todas as músicas que cantarolava no caminho entre o trabalho e sua casa sumiam nesse momento. Não havia um sorriso esboçado em seu rosto, nem o mais amarelo deles. Seu coração batia mais forte, como se fossem marteladas. O seu rosto exibia as rugas de toda sua vida, que só ficavam em evidencia quando descia do carro pronto prá entrar em casa.
Mas hoje deteve-se na porta. Enfiou a mão no bolso, tilintou as chaves com os dedos. Hesitou. Definitivamente não queria entrar. Não hoje. Recuou, deu a volta, e tentou olhar pela janela da sala. Houve um momento que sentiu-se como um ladrão, ou um espião, tentanto descobrir o movimento das pessoas da residência, para que mais tarde pudesse tirar algum proveito da situação.
Viu sua mulher passar, seguida pelo seu filho. O calor que havia sentido antes retornou ainda mais forte. Começou a suar e lembrar de tudo o que passara até então. De algum modo, a figura do filho o deixava inteiramente transtornado. Como poderia alguém tão parecido com ele fisicamente, com uma fisionomia tão semelhante ser tão bizarro?
Deixou a janela e voltou para o carro. A Potranca era seu refúgio, e guardava a solução definitiva para um problema sério que estava encarcerado em seu lar. Ficou alí remoendo toda sua mágoa, sua angústia, sua raiva e seu arrependimento. E junto a tudo isso, figurava a imagem do seu rebento de 22 anos.
O filho era um ser no mínimo inconveniente: turrão, teimoso e desagradável. Não se arrumava muito bem, tinha uma aparência deplorável: sujo, mal arrumado e com cabelos despenteados. Andava com uma calça jeans rasgada com lixa, e um tênis que um dia foi cinza e agora é preto. Seu vocabulário consistia de gírias. Não provocava ninguém, mas a sua presença era uma provocação. Não há quem não se incomodasse com o simples fato que ele poderia estar em algum lugar.
Saiu do carro munido do que resolveria sua vida. Deixou a Potranca estacionada na garagem como de costume, desceu do carro tranquilamente. O calor que havia subido pelas pernas já cozinhava seu cérebro e transformava seus olhos em duas bolas de fogo. Abriu a porta. Beijou a esposa. Olhou para o sofá. Gritou. Berrou. Atirou.
5 tiros, seguidos por 5 suspiros. Nenhuma lágrima escorreu. Beijou a esposa como há muito não fazia. Subiu as escadas em direção ao banheiro. Ligou a ducha e cantou, como há muito não cantava. Saiu do banho e foi se deitar.
Estava leve. Estava feliz. Estava completo.
27/07/2009
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