29/07/2009

Cadáver-irmão

Tudo o que ele não queria era ter sujado sua camisa de sangue. "Vai dar trabalho prá limpar isso daqui" dizia para si mesmo enquanto fitava o cadáver-irmão no chão. Não tinha se arrependido de ter matado quem é sangue do seu próprio sangue, na verdade sentia-se aliviado. Mas a camisa manchada de sangue realmente o incomodava. A camisa que havia custado tão caro.
Não tinha realmente a intenção de matar. "Eu queria apenas dar um susto, dar uma lição" pensava, "mas ele pediu por isso, eu senti." Mas o cadáver estava lá, calado, imóvel, com os olhos abertos sem brilho, fixos no infinito, como se observasse através de seu assasino-irmão. O sangue escorria da cabeça, tingindo o tapete de um vermelho escuro.
Não pensava em limpar aquela sujeira, porque não era isso que importava. Dinheiro nenhum nesse mundo pagaria a sua felicidade em ver o irmão estirado no chão. Daqui prá frente não ouviria mais os insultos gratuitos nem aquela voz cheia de rudeza, não veria mais aquele ser carregado de rudeza e preconceito, não seria mais alvo de investidas maldosas de um irmão ciumento.
A verdade é que nunca entendeu as razões que levaram seu próprio irmão a tal comportamento. Não entendia como todo esse conjunto de coisas ruíns cabiam dentro daquele ser que era do mesmo sangue que o seu. Não adiantava investigar, nem perguntar. A maldade era lançada gratuitamente em cada palavra, em cada gesto, em cada movimento do seu irmão.
Agora tudo estava resolvido. Sentia-se ótimo em ter um cadáver-irmão. Era tudo o que sempre sonhou...

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