Sinto falta dos meus amigos. Ultimamente, mais do que nunca, fico relembrando as viradas de noite no apê do Marquinhos. A Flávia e a Naná estavam sempre lá. O Daniel não ia sempre, mas quando ia o divertimento era garantido. Lembro que cogitávamos a possibilidade do Daniel ser gay e gostar do Marquinhos, mas a Flávia era a primeira a dizer que estávamos delirando, e que ela ainda iria beijar o Daniel.
A Naná sempre enchia a cara. Eu não dispensava a Vodka, e afirmava para todo mundo que eu sabia beber. Sim, eu sabia beber. Eu não ficava bêbado porque eu sabia beber. Mas a Naná... essa definitivamente era quem sabia beber. Pegava a garrafa e virava o litro, como se fosse uma frequentadora de boteco. Ninguém dava nada prá aquela baixinha, aquela tampinha, aquela bonequinha. Tudo nela era pequeno: as mãos, as perninhas, os olhos miúdos metidos atrás dos óculos, e uma boca que não combinava com a garrafa. Ah, mas nada disso impedia a Naná de entornar o litro.
O Marquinhos era o mais desperado. Estava sempre pedindo prá gente falar mais baixo por causa dos vizinhos chatos. Coitado do Marquinhos. Vez ou outra tinha que se explicar com a polícia. Os vizinhos dele eram muito perturbados. E sensíveis. S-e-n-s-í-v-e-i-s. Não é a toa que ele era o mais desesperado. Mas não queríamos nem saber. O que a gente queria mesmo era bater papo, beber, falar de teatro, de música, de livros... Não que o Marquinhos não gostasse, mas ele estava sempre mais preocupado em fazer a gente calar a boca do que no assunto.
O Daniel o defendia com unhas e dentes. "Pô gente, depois ninguém vai ajudar o Ma a pagar a multa do condomínio" dizia ele de tempos em tempos. Naná não perdoava e já dava seu palpite dizendo que o Daniel era um puxa saco do Marquinhos, que ele deveria é sentir alguma coisa pelo dono do apê. O Marquinhos ficava vermelho, e o Daniel desconversava. Até hoje não sei se rolou alguma coisa alí...
Sinto muita falta da galera. Sinto falta da maneira com que a Flávia defendia os atores circenses, dizendo que eles eram melhores do que os atores de teatro. Eu, na minha ingnorância do meio circense, dizia que não se podia comparar, não havia maneira de se comparar. Mas ela nçao dava trégua, acendia mais um cigarro e se metia a defender o circo.
E a noite ia, a madrugada vinha, e quando o dia rompia com o sol invadinho o apê, era hora de irmos embora e deixar o Marquinhos sozinho com as pontas de cigarros, as garrafas de cerveja e de vinho vazias, livros abertos, discos em volta do som, palavras suspensar no ar, pensamos cravados nas paredes, e análises bêbadas pendendo do teto...
Eram bons tempos...
25/07/2009
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