06/07/2009

Da Arte de Morrer

Há uma semana não comia. Não porque não sentisse fome, pois seu estômago doía. Mas saciada por saciada, preferia estar cheia de nada. Também não queria ninguém tendo que ajudá-la no momento de ir ao banheiro. Nunca tinha precisado da ajuda de ninguém. Há tempos tinha deixado de ser um bebê prá precisar de ajuda no banheiro.
Há uma semana ficava admirando o nada. O olhar ora perdido nas marcas e rachaduras da parede, ora fixo no Cristo crucificado. Quais eram seus pensamentos? Quais eram suas vontades? O que almejava alguém com quase 80 anos?
Há uma semana deixou de se olhar no espelho. Após o derrame que paralisou metade do seu rosto, não quis mais ver refletido alguém que não era ela. Não sorria mais. Não havia razão, não havia motivos e principalmente não havia vontade.
Há uma semana não levantava mais da cama. As dores nas pernas, e os joelhos fracos deixaram-na como um paralítico. Se recusava a sentar numa cadeira de rodas. Ela, que nunca necessitou de ninguém, não poderia se deixar ser levada, empurrada numa cadeira de rodas.
Há uma semana sentia o mesmo desejo: o de dormir. Dormir. Apenas.

Um comentário:

Drika Nery disse...

no fim se deixou
ser levada
sem cadeira de rodas
nem nada

Grande beijo, Di.

Je suis la tristesse parce que j’adore mes souffrances

  20 álbuns de músicas tristes. A playlist de uma vida como a minha. Miserável, desejosamente miserável. Prazerosamente miserável.  Cada not...